Anne Rice é uma boa esritora? Duvido! Não podemos colocá-la num mesmo patamar que um Alan Poe ou John Grisham (autores americanos). Mas, felizmente, ela não se encontra entre Sidney Sheldon ou Harold Robbins atuais, apesar de uma certa tendência a se aproximar deles, ultimamente. Ela estaria no mesmo nível de Michael Crichton, um autor "pop" bem assessorado... Mas alguém que já foi lida por Alan Moore, Neil Gaiman e Garth Ennis merece certo respeito. Não esquentem, pois logo cada um será criticado aqui...
Mas se Anne Rice não é uma boa escritora, ela é uma boa autora. Geralmente, ela escreve boas histórias. Ou, no mínimo, um bom estilo de história, que pode ser reutilizado sempre que os editores pressionarem por novos best-sellers. A fórmula que desenvolveu ao escrever "Entrevista com o Vampiro" (1978) pode ser encontrada em vários livros da série "Cronicas Vampirescas", mas com sérias modificações e evoluções, dando a cada volume uma personalidade própria - personalidade do vampiro que a conta. E mesmo fora da série, como na saga da família Mayfair ("Hora das Bruxas" (1990) e posteriores), Ramsés, o Maldito (1989, que deveria ser um filme!) e, mais intensamente, em "O Servo dos Ossos" (1996) (onde a evolução da fórmula alcança seu ápice) e até em "O Violino" (1997) (se até Sean Connery atuou em "Os Vingadores" (1998), porque ela não pode escrever um livro bosta também?).
As "Cronicas Vampirescas" é sua série mais popular, principalmente em se tratando do gênero terror, uma especialidade inglesa na língua inglesa (hohohoho). Mas é um terror mais íntimo e filosófico, pois parte do ponto de vista dos próprios vampiros, dando a eles tanto as emoções humanas como emoções próprias desses seres - geralmente em conflito um com o outro. Questões como "pode o mal causar o bem", "demônios servirem e amarem a Deus", "Deus está morto" e "sou o que sou, e dane-se o resto" permeiam os primeiros livros. Sistemas filosóficos e religiosos "humanos" são debatidos, desafiados ou adaptados por esses seres, em busca de explicações que todos nós procuramos. O fato deles terem mais tempo para isso, e matarem várias pessoas durante essa busca só dá mais um toque às histórias. Logo, você se identifica com o "autor" (o vampiro) da narrativa, e olha com outros olhos os humanos que estão presentes. Olha com os olhos de um vampiro, e as mortes que o cercam não o afetam tanto quanto antes. Talvez aí esteja parte do fascínio da obra. Quem não quer ser um vampiro depois de ler esses livros? Mesmo depois de tudo o que foi descrito, tudo o que se deve abrir mão?
Por terem afinidade e questões em comum, seria normal a semelhança entre os relatos. Mudaria apenas o local onde vive o humano vampiro em potencial (New Orléans, Paris, Veneza...), com dados históricos verídicos e enriquecidos pela autora. O vampiro-mestre que o cria, com toda sua origem e filosofia e as provações e horrores por que passa através dos séculos até os dias atuais. Além de outros vampiros que, por ventura, aparecessem na frente. Assim se passa no proprio "Entrevista...", "O Vampiro Lestat", "Pandora" e "O Vampiro Armand" (e, provavelmente, em "Vampire Vicctorio" (2000)). Criticando, seria a reutilização da velha fórmula. O que muda é justamente a personalidade do retratado, onde se destaca o melhor de todos: Lestat. Tanto, que do ponto de vista dele, partem 4 livros da série. Um vampiro, como todo bom predador, possui sentidos muito superiores, de modo que retrata mínimos detalhes do ambiente, principalmente dos objetos que gosta. Cri-criticando, é um belo método enche-linguiça. Mas também depende do morto-vivo em questão. Pandora (em "Pandora", oras!) é mais pragmática (afinal, é romana) e, portanto, não se atrela tanto a detalhes: é o menor livro da série. E o único estrelado por uma "vampira", do começo ao fim. Pois, apesar de marcantes personagens "femininos" (a começar por Cláudia), a presença ""masculina"" é muito mais forte. As aspas duplas significam, não só a falta de sentido quando falamos de masculino/feminino em relação ao nosferatu em questão, mas também pela alta boiolagem que rola nas entrelinhas. Isso é fato, principalmente nos livros "anos 90" da série. Apesar de um dos lados não ser humano, a maioria dos lances rola entre um vampiro e um "jovem bonito".
Mas esse "esquema" foge quando nos deparamos com "Rainha dos Condenados" (1988), apesar dos diversos vampiros apresentados nessa edição (uma verdadeira convenção!) terem suas origens descritas dessa forma. E em "Memmoch, o Demônio" (1995), que conta, não a origem de um vampiro, mas do próprio demônio! Mas principalmente em "A História do Ladrão de Corpos" (1992), que se enquadraria mais no gênero "aventura" que qualquer outro da série! (ainda bem que só esse!). Só p/ finalizar o comentário geral, antes de iniciar os comentários particulares sobre cada livro, os leitores mais atentos devem perceber alguns deslizes da autora de uma obra para outra. No decorrer dos livros, há certos encontros entre as entidades, que são recontadas em outros volumes, sob outra visão. Não são erros de ponto de vista ou nada assim, são erros até grosseiros, como troca de nomes, lugares e anos. Mas o que é tudo isso para um vampiro?
[]s
Sovi, o que observa e está sempre presente
(publicado originalmente no aSASzine! Edição no. 2 em 30/05/2000. Uma das minhas primeiras tentativas de publicar algo na Net. Nunca escrevi sobre nenhum livro da autora em particular, mas espero debitar essa dívida aqui)

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